domingo, 20 de maio de 2012

A opinião no jornalismo: o diferencial e a armadilha

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Jornalista é uma profissão não necessariamente das mais abençoadas. Embora haja a promessa da fama, da matéria de destaque, do autógrafo na rua, do salário promissor e do prêmio Pulitzer (quem dera…) ela conta com algumas restrições técnicas capazes de transformá-la em uma carreira no mínimo espinhosa.

Jornalistas não lidam com a promessa de algo palpável. Sua matéria prima e seu produto final, por mais que estejam em meios físicos, são abstratos. Lidamos com informação, da fútil ao grande furo da opinião pública. Lidamos com acontecimentos, cada um deles com o potencial de mudar o cotidiano de uma pessoa, seja por um minuto ou por uma vida inteira. Uma responsabilidade e tanto e que exige muitos cuidados. Uma delas é a dita imparcialidade, vista como uma regra inflexível.

Um pouco mais sobre a imparcialidade

Imparcialidade nada mais é do que ter a garantia de isenção frente a notícia. Uma postura que consiste em escrever ou noticiar com justiça perante os fatos, em dar aos dois lados a mesma oportunidade de foco, independente de qual seja a crença do profissional em questão. Isso garante ao seu público a liberdade de fazer algo com esse fato: gostar, desgostar, se expressar ou agir, de acordo com sua vivência e cotidiano.

Conceito ideal, mas utópico caso seja analisado com a mesma flexibilidade de um “é oito ou oitenta”. E sendo uma regra, obrigatoriamente haverá quem irá contra a corrente, ainda que com a autorização do chefe.

Esse é o caso de Rachel Sheherazade, apresentadora do SBT Brasil, que surgiu para o público quando emitiu sua opinião sobre o carnaval. Sua “coragem” repercutiu e o buzz resultou em ascensão profissional. Antes apresentadora da TV Tambaú, afiliada do SBT na Paraíba, Rachel foi contratada pela emissora de Sílvio Santos para entrar em rede nacional.

Rachel Sheherazade: jornalista do SBT é uma das paladinas de uma nova tendência

A emissora, não conhecida exatamente pela seriedade com que encara seu departamento de jornalismo, foi o local propício para a subversão definitiva das regras, ainda que dentro de limites previamente autorizados. Até então, os maiores sinais de opinião na mídia brasileira eram a modalidade de levantamento de sobrancelhas do Willian Bonner, os ímpetos de Bóris Casoy ou qualquer matéria sobre corrupção vindas da Veja ou de política, vindas da Globo.

Expressando sua opinião – ou a do veículo – na bancada do SBT Brasil, entre inexpressividades de quem opina sobre batatinha-quando-nasce e assuntos de utilidade, Rachel entrou em uma nova polêmica ao fazer o mesmo a respeito da condenação da ex-estudante de direito Mayara Petruso. Em 2010 a garota postou ofensas a nordestinos em sua conta do Twitter, considerando-os culpados pela vitória de Dilma Roussef nas eleições presidenciais de 2010. O assunto voltou a mídia essa semana quando a punição da garota – de cinco meses e 15 dias – foi convertida para a prestação de serviços comunitários e pagamento de multa, sendo pauta inclusive para o SBT.

Apresentadora do SBT chama tuiteira condenada de ignorante e alienada

Após exibição da reportagem sobre a punição que ex-estudante de Direito Mayara Petruso sofreu por pedir, no Twitter, para assassinarem nordestinos, a apresentador do ‘SBT Brasil’, Rachel Sheherazade, disse que e garota era “rancorosa, alienada e ignorante” e completou com “coitada é digna de pena”. O comentário da jornalista foi ao ar, ao vivo, na noite dessa quinta-feira, 16.

“Bem feito. Preconceito é coisa de ignorante, gente sem acesso à educação e cultura. Não é o caso da jovem paulista. Ou é? Mayara certamente não conhece o nordeste, sua cultura, história, também não conhece os nordestinos, nem os anônimos nem os notáveis”, disse Rachel, que é natural de João Pessoa.”

Como era de se esperar, a postura da apresentadora resultou em falatórios e polêmicas. Seu desempenho agradou ao público, considerando sua fala aquilo que todos gostariam de expressar. A glória perante ao telespectador rancoroso e sedento por justiça, mas também de discórdias perante sua categoria profissional. Até que ponto um jornalista, em pleno exercício de sua profissão, pode se despir de um de seus princípios básicos? Até que ponto ele pode se arriscar em algo que pode soar como ofensivo ou pessoal usando das facilidades propiciadas por seu meio?

 

Diferencial que pode se tornar uma armadilha

Ok, colocando a verdade à prova: a imparcialidade, a grosso modo, é um padrão inatingível, seja como conduta ou como ferramenta no exercício da profissão. Uma vírgula pode mudar uma história inteira caso sua localização seja devidamente pensada, assim como o seu tom de voz, da linha editorial do seu veículo, ao índice de “babado fortíssimo” do fato ou simplesmente a ordem do seu chefe (sim, a vida é dura para quem tem contas a pagar).

Ela é impossível de seguir para quem não é capaz de enxergar em nuances. Seu tratamento pode ser considerado um diferencial na luta por números e cifras entre veículos, mas é absolutamente necessária como ferramenta básica de trabalho, pelo menos enquanto este profissional está em exercício.

A fala a respeito de Mayara Petruso não foi mais do que a tão famosa “a voz do povo é a voz de Deus”, que caiu bem enquanto seu nome é tão popular quanto do de Judas, porém e se fosse dedicada a outra pessoa? Até que ponto vale a pena jogar pela janela um princípio fundamental de conduta profissional em prol de audiência ou de oportunidade?

Se essas perguntas tem uma resposta, ainda não se sabe, mas espera-se que o episódio seja uma exceção e não uma regra. Porque toda forma de expressão é passível de análise, e aquilo que deveria ser um sopro de vida a uma fórmula desgastada pode se transformar em uma armadilha traiçoeira.

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