Custe o que custar: literalmente
Nos últimos meses bem que o CQC está evidenciando bastante a razão de seu nome. Isso a ponto de muitos citarem que virou moda falar mal do programa ou de seus apresentadores. É, devo dizer que sim, provavelmente este seja o caso e na verdade é que motivos não faltam: eles não param de gerar novas razões e a mais recente delas é a pior possível.
Estou falando da entrevista de Rafinha Bastos para a revista Rolling Stone de maio deste ano na qual o apresentador e pretenso comediante disparou mais uma de suas pérolas:
"Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra caralho." O humorista Rafinha Bastos está no palco de seu clube de comédia, na região central de São Paulo. É sábado e passa um pouco das 20h. Os 300 lugares não estão todos ocupados, mas a casa parece cheia. Ele continua o discurso, finalizando uma apresentação de 15 minutos. "Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade." Até ali, o público já tinha gargalhado e aplaudido trechos que falavam sobre como cumprimentar gente que não tem os braços, o que dizer para uma mulher virgem com câncer, e por que, depois que teve um filho, Rafinha passou a defender o aborto. Mas parece que agora a mágica se desfez. O gaúcho de 34 anos, 2 metros de altura, astro da TV, não está emplacando sua anedota sobre estupro. Os risos começam a sair tímidos e os garçons passam a ser chamados para servir mais bebida. Rafinha aparenta não se dar conta de que algo ruim está acontecendo. Em vez de aliviar, ele continua no tema. "Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço." Em vez de rir, uma mulher cochicha para alguém ao lado: "Que horror".
Eu gostaria de saber desde quando o estupro é uma piada, mas ok. Muitos já falaram sobre isso. Aliás, a agenda dos assuntos femininos tem sido bastante discutida em função deste programa. Aliás, muitos temas viraram pauta diante de sua exibição seja para o bem ou para o mal sob a formato que se convencionou chamar de “jornalismo justiceiro” ou sob a palavra em forma de piada – ou algo parecido com isso – de seus apresentadores. Entendo que se queira protestar contra o tal do politicamente correto, como costuma ser a alegação depois de notarem o circo armado, porém aquilo que julgam ser uma tirada sensacional passa muito longe de ser considerado algo que se enquadre nesta categoria, ou em qualquer outra.
Se isso é um jogo para conquistar audiência e fazer render sinceramente não sei, porém por mais que eu e vários outros não assistam o programa, suas palavras e posturas podem e tem de ser discutidas. Sejam coisas faladas no ar, bastidores ou trabalho isolados longe das câmeras da emissora, tudo isso faz parte do CQC: as denúncias de corrupção, o ímpeto justiceiro, as piadas sem graça, as discussões referentes a misoginia e o argumento da liberdade de expressão usado somente quando é conveniente. Tudo isso para o bem ou para o mal.
Se falar mal do CQC é moda ou parte da agenda de muita gente por assuntos gerais ou simplesmente por uma espécie de ativismo hater, não sei dizer, mas seja lá qual for a resposta, que ninguém seja pego desprevenido. Um programa que tem o nome de Custe o que Custar certamente fará sua reputação valer, como uma obrigação ou uma questão de honra.
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4 comentários:
Acho curioso o Marcelo Tas pregar tanto pela liberdade de expressão e achar ruim quando falam dele ou do programa.
Custe que Custar mas a que custo? De fazer piadas com temas que não têm tom humorístico? De deixar pessoas constrangidas com o modo de fazer piada, achando que só porque é humor é autorizado?
Infelizmente, o humor sempre se baseia em denegrir determinados grupos: portugueses, loiras, e etc, e aqueles que se dizem humoristas acham que qualquer grupo pode ser usado para isso, como mulheres estupradas, domésticas (o mais recente comentário) e mulheres que amamentam. Certos aspectos não podem ser zoados dessa maneira.
Ele é de muito mal gosto, melhor dizendo falta sensibilidade e amadurecimento.
Gostei dos posts por aqui.
Abracos
Sybylla, vc já deu a resposta.
Custe o custar custe o que custar. Traduzindo, a qualquer custo.
E todo tema pode ser humorístico sim. Se as pessoas não acharam graça, a culpa não é do tema. Ou é da própria piada ou do humorista. Nunca do tema.
Neste caso especifico, a culpa é tanto da piada quando do humorista. O tema, seja ele qual for, é sempre inocente. Seja falando de loira, falando de estupro ou até do holocausto.
Agora, tirando "loira", os outros a pessoa tem que ter culhão pra usar como piada. Ou ser maluco mesmo como parece ser esse tal de Rafinha Bastos.
Emanuelle, parabéns pelo blog!
Não estou defendendo a piada de extremo mau gosto do Rafinha Bastos, mas o que ele faz fora dos bastidores não está ligado ao CQC.
Já em relação a piada, não é novidade para ninguém que o humor, de forma geral, utiliza o que chamamos hoje de ''minorias'' para fazer graça. Claro, existe uma linha tênue entre humor e desrespeito. Mesmo não sendo fã de generalizações, o povo brasileiro adora esse tipo de humor, e a fama destes humoristas só comprovam tal fato.
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