Carnaval e imparcialidade: é muito jogo de cintura e muito samba no pé.

É, parece que esse ano o carnaval polemizou um pouco mais que o normal. Estou falando do comentário da jornalista Rachel Sheherazade sobre a festa, veiculado em um telejornal da TV Tambaú, afiliada do SBT na Paraíba no dia 03 de março.
(Para quem não está com paciência de assistir o vídeo, a jornalista disponibilizou o texto de seu comentário em seu blog pessoal.)
Como era de se esperar, o desabafo intitulado Esperando a quarta-feira de cinzas rendeu e foi um dos tops dos assuntos mencionados no Twitter. O tema é importante, e a veiculação em mídia do contraste com o que seria habitual ao gosto popular fez a discussão rolar solta.
Diferente de tudo que encontro e insistem de chamar em polêmica, o comentário de Rachel ofereceu sim elementos interessantes para um debate. E o melhor: os argumentos estão muito longe de serem os chavões das coberturas toscas e do que chamam de depravação.
Subvertendo regras: o mito da imparcialidade
Não estamos acostumados a ver jornalistas emitindo opiniões. Talvez o exemplo mais claro de algo nesse sentido seja o de Bóris Casoy e seu bordão “Isto é uma vergonha”. Claro, alguns outros apresentadores já se arriscam a fazer pequenos comentários ao fim de uma notícia ou reportagem, como acontece as vezes na Record, mas ainda são exceções.
Estamos habituados ao padrão americano da imparcialidade, de contextualizar e ouvir os dois lados da história sem demonstrar preferências. O intuito é oferecer ao espectador o direito de formular sua própria opinião a respeito daquilo que assiste, ouve ou lê. Mas claro, ainda levamos o mito ao extremo já que ao pé da letra, esse negócio de imparcialidade não existe.
Imparcialidade é subjetivo, especialmente quando falamos em mídia, comunicação. Subjetivo e impossível. Imparcialidade é mito: ela está em xeque a cada palavra escrita, imagem ou argumento escolhido no ato de repassar a informação. Para os adeptos da filosofia, é oito ou oitenta, ser imparcial é pura utopia: existe parcialidade, sim, a cada etapa. (continue lendo)
Na prática, existe sim a parcialidade. A diferença é o quanto ela é declarada. Há veículos conhecidos na mídia por seguirem correntes políticas, mas que dificilmente admitirão tal postura. Isso já foge ao conceito extremo da utopia do imparcial, não é mesmo?
Dizer que ser imparcial é mito não é o mesmo que afirmar a mídia como manipuladora descarada e sem compromisso com a verdade (embora muitas possam ter esse mérito). O jornalismo precisa da verdade e de fatos que a comprovem, pois essa é a essência. Ouvir e expor os dois lados é obrigação porque a responsabilidade é enorme: o público precisa refletir sobre as informações e notícias que consome, inclusive desconfiar: até mesmo de fofoca de celebridades. É preciso critério. (continue lendo)
Subverter para refletir
Mas tudo bem, voltando ao assunto: Não dá para negar a ousadia de suas palavras. A repercussão na internet foi imediata, tendo em si as mais diversas opiniões, que tinham como cerne o amor ou o ódio pelo período de festa.
Lendo os comentários deixados tanto no YouTube quanto no post de seu blog cheguei a ter pena pelas palavras de ódio recebidas, mesmo que não tenha lhe faltado apoio e elogios. Sua opinião é tão válida quanto seus argumentos – embora nem todos possam concordar – e o ato de manifestá-la em público acarreta respostas que nem sempre são as mais civilizadas.

Bom, eu poderia afirmar que, ao contrário do que diz seu desabafo, poderia afirmar que boa música é questão subjetiva, dependentes de local e de potência do som; que o carnaval movimenta sim a economia dos municípios e seus pequenos comércios; que os serviços das ambulâncias disponíveis não servem somente aos valentões e bêbados, ou que os procedimentos de curetagem depois de uma gravidez indesejada pós-folia poderia ser evitada pelo uso de preservativo e métodos anticoncepcionais pelos parceiros.
Poderia, mas não estou me propondo a opinar sobre sua opinião, mas sim sobre sua postura como jornalista. Naquele momento, ela agiu como formadora de opinião – como pretensamente é dito sobre a nossa profissão – e contou com uma liberdade que não costuma ser vista.
Um ato corajoso, não importa se o telejornal em questão seja de uma região que não aparente ter grande relevância para os atuais padrões de repercussão de acontecimentos, ou de uma emissora que não leva o jornalismo lá muito a sério.
Claro, não espero ver algo semelhante no Jornal Nacional ou em qualquer outro telejornal da Globo, e duvido que algum dia isso venha a ser praxe em qualquer emissora. Seria preciso muita discussão, afinal certas liberdades trazem mais responsabilidades e dilemas éticos, especialmente em emissoras que atendam números suficientes para pensarmos em uma massa. São casos onde a tal da imparcialidade se mostra vital para a sobrevivência. Afinal uma afronta poderia significar prejuízos imensuráveis.
Ainda assim, é interessante ver como surgem as exceções e a forma como as supostas regras do jogo podem ser subvertidas em prol de uma reflexão.
PS: Esta blogueira não é uma foliã, embora tenha gostado muito de carnaval durante sua infância.
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6 comentários:
Ela foi certamente ousada. Talvez toda a polêmica gerada tenha servido pra abrir os olhos das autoridades. Concordo que falta segurança e auxílio saúde para a população no dia a dia, mas acho que ela foi dura quando disse que as ambulâncias no Carnaval só estão ali pra servir bêbados. Acertou num ponto, exagerou noutro. Mas, somos todos seres humanos, certo?
Eu sou da opinião de que quem pensa um pouquinho sobre essa folia enxerga exatamente o que ela expôs com muita coragem e argumentos limpos. Gostaria de ver algum folião discutir com o que ela diz de forma esclarecida, mas contar com o bom-senso das pessoas não é argumento que podemos usar, infelizmente.
Vejo porque este post veio parar na segunda-feira! Excelente texto Manu!
ELa está de parabéns pela coragem de dizer a verdade nua e crua já que nesse país ninguém nunca diz o que realmente quer dizer.
oi Manu
Hoje eu disse no twitter - Durante o carnaval existe 3 categorias de pessoas:as que adoram carnaval, os que odeiam e os que ficam só olhando. Não há um consenso nessa história.
O que a jornalista disse é verdade, o carnaval não é de graça pra ninguém, até quem não curte nem participa acaba pagando o preço alto da festa.
A questão toda é que muitas pessoas aproveitam para extravassar suas emoções nessa época, como se fosse uma compensação pelo ano inteiro de labuta, elas foram acostumadas a isso e assim será por muitos anos.
O interessante agora é que estamos tão acostumados a ver a mídia vender o carnaval que nos surpreendemos com uma opinião contrária.
Pra mim a melhor parte do carnaval é a folga, mais horas pra dormir, pra repousar, pra refletir, pra poupar o fisico, enquanto há por ai muitos se empenhando para se acabar ao extremo como se não houvesse amanhã.
Muito bom o debate.
Um abraço
@anakint
Oi, Manu
Confesso que já assisti a transmissão dos desfiles das escolas de samba do Rio nos dois dias, do início ao fim. E, também, já acompanhei a famosa divulgação nota a nota: "Unidos da Vila tal...Deeeeez!"
Já tive minha overdose de peitos e bundas.
Atualmente, prefiro gastar meu tempo com coisas mais úteis que o carnaval. Um bom livro ou filme, por exemplo.
Gostei muito da opinião emitida pela Rachel. É preciso coragem pra se posicionar contra o gosto da maioria e concordo contigo quanto aos motivos que levam os âncoras de telejornais a evitar opiniões pessoais.
Essa é uma coisa que me intriga há tempos: por que os jornalistas são considerados formadores de opinião se raramente emitem o que pensam, devido à imparcialidade exigida pela profissão?
Ótimo texto!
Bjs
Bem, mesmo sabendo dos deveres e 'limites' de um jornalista, acho que ela também é humana e blogueira, e para a grande maioria simples do mundo, ela fez a diferença sendo mais humana do que jornalista. Para os colegas da área pode haver mais debates sobre a posição. Gostei muito das palavras da Rachel e da atitude tbm. Bom post
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