terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

(Des)autoria na web: Luis Fernando Veríssimo e “A vergonha” que não é sua.

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Se tem algo com a qual eu recomendaria atenção na Internet, além da relativa segurança do anonimato e dos “cliques em qualquer coisa” seria com a autoria de textos lidos por aí. A rede é um festival de palavras sem dono ou talvez, com excesso deles.

Semana passada recebi uma corrente repassando um texto crítico ao Big Brother Brasil chamado “A Vergonha”, atribuído ao escritor Luis Fernando Veríssimo. Falsamente atribuído diga-se de passagem pois o texto não é dele.

Para quem duvida aí vão algumas provas incontestáveis:

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Para quem já leu uma obra de Veríssimo fica evidente que não se trata dele. Sem querer desmerecer o autor fantasma, mas falta o estilo. Veríssimo é irônico e sutil, enquanto “A Vergonha”  possui linguagem falha e repetições consideradas vexatórias em uma dissertação de colegial.

Por exemplo: as reticências aparecem 13 vezes em um texto de pouco mais de 70 linhas. E dez delas estão em um único parágrafo.

Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa..., ir ao cinema..., estudar.... , ouvir boa música..., cuidar das flores e jardins... , telefonar para um amigo... , visitar os avós... , pescar..., brincar com as crianças... namorar... ou simplesmente dormir. 

Isso está muito longe de ser um estilo de escrita com pontuação especial, não?

E agora o brinde do negócio. Algo que um escritor jamais faria. Seria um sacrilégio. Pai Mei arrancaria os próprios olhos se tivesse de ler isso.

[…] Veja o que está por de tra$$$$$$$$$$$$$$$$ do BBB 

Apesar de todos esses “poréns”, ainda tem os argumentos moralistas e amplamente discutíveis dos quais não pretendo discorrer.

Não, não assisto BBB. Sou obrigada a usar filtros no Tweetdeck a partir de um certo horário porque começa uma enxurrada de hashtags relacionadas ao reality show. Não sei se a atual edição é essa putaria toda mesmo, mas convenhamos… o texto usa de argumentos rabugentos. Pesados demais para a sutileza de Veríssimo.

“Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.”

Muitas pessoas acreditaram na suposta autoria do texto, deleitando-se por alguém de peso ter voz para dizer tudo aquilo que lhes parecia entalado na garganta. Pois bem, alguém escreveu. Porém não aquele a quem gostariam.

Muitos outros textos de autoria trocada pipocam todos os dias na rede. E uma vez colocado no ar e repassado de email em email eliminam-se as chances de um verdadeiro esclarecimento.

Uma vez me deparei com um texto atribuído a Herbert Vianna, mas na verdade a autora era a jornalista Rosana Hermann. Na época bastou uma visitinha ao Google para confirmar a autoria, e olha que a descoberta nem foi com esse link de falha épica postado há pouco. Mesmo assim continuam espalhando esses escritos crendo serem de autoria do cantor, tendo assim o mesmo destino de muitas outras crônicas por aí.

Muitos são vítimas desse tipo de coisa: Martha Medeiros, Arnaldo Jabor, Pasquale Cipro Neto. Aliás este último parece ter se acostumado à profusão de palavras não ditas, embora ainda se ocupe em desmenti-las quando possível.  

A INTERNET É UMA maravilha -e disso ninguém duvida, suponho. No entanto, se/quando é mal usada, não passa de uma grande bobagem. Uma das tantas provas disso é a livre circulação de textos "escritos" por Luis Fernando Verissimo, Arnaldo Jabor, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Jorge Luis Borges, Mário Quintana, Pasquale Cipro Neto etc.

Opa! Pasquale Cipro Neto sou eu! E, até prova em contrário, não fui informado de ser o "autor" de algumas bobagens que circulam por aí (continue lendo…)

Sério, eu gostaria de entender quem faz esse oba-oba autoral. De onde vem esses escritos de autoria duvidosa? Seria de quem concorda e gosta do que leu mas julgam que um joão-ninguém não seria bom o bastante para receber atenção massiva? Ou isso partiria de seu próprio autor, em um claro exemplo de baixa autoestima?

Mistérios da vida…

 

PS: Editado para acréscimo de link indicado pelo José Márcio, do blog Os Invicioneiros. Valeu!

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