sábado, 27 de fevereiro de 2010

Lêdo Ivo: calor, literatura cosmética e o problema do Brasil

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The Student

- Você não quer mesmo que eu leia isso, quer?

Sábado, tremendo dia de bloqueio e eu encontro no G1 uma coisa que me fez rir. Não é nada que esteja no Planeta Bizarro, pelo contrário. Talvez até fosse pra ser sério ou minimamente polêmico, mas como ultimamente todo mundo chama qualquer coisa que interesse de polêmico, temos de relevar.

Estou falando de um post do blog Dossiê Geral de Geneton Moraes Neto, comentando entrevista que fez com um imortal da Academia Brasileira de Letras: o poeta e escritor Lêdo Ivo, que soltou algumas farpas por aí.       

Se você tiver coragem de ultrapassar um título de post totalmente em Caps Lock, até te recomendo a leitura. Aí vai um trechinho da “polêmica”:

UM IMORTAL DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS DISPARA SEUS PETARDOS: O CALOR E A PAISAGEM EXUBERANTE “ATRAPALHAM” O BRASIL. E MAIS: LITERATURA BRASILEIRA É “PAISAGÍSTICA, COSMÉTICA E DESESPIRITUALIZADA”

[…]

Lêdo Ivo defende uma tese original: diz que a exuberância da paisagem atrapalha o Brasil, porque faz com que o brasileiro viva voltado para fora, em detrimento da “vida interior”. O resultado se faz sentir na literatura brasileira:

“É claro que a exuberância da paisagem atrapalha. Veja o problema amazônico : a paisagem no Brasil sai pelo ladrão. Isso se reflete na literatura brasileira. É um literatura muito paisagística, muito  cosmética. É raro, no Brasil, um escritor do tipo de Machado de Assis, um “tatu” literário, que sonda as almas. Uma das funções da literatura é o estudo da condição humana. Você não pode fazer uma literatura cosmética, só de fora. Você tem de dazer uma literatura “de dentro”. Isso falta ao Brasil! É um país que tem uma literatura muito desespiritualizada, uma literatura muito de superfície”

O escritor aponta outro “mal” brasileiro: o calor – que não favorece, em nada, a reflexão :

“O calor excessivo não ajuda a reflexão. Os escritores europeus produzem, em geral, nos meses de frio. Baudelaire anseia pelo frio para escrever seus poemas! Aqui no Brasil, o calor atrapalha muito”. (continue lendo)

Os rituais e atos de envolvem a escrita, especialmente a ficção sempre me fascinaram. Talvez por isso esteja dando essa atenção a tal entrevista. É interessante ouvir considerações de um entendido no assunto, especialmente para os escritores de gaveta. Foi curioso ouvir algo sobre literatura cosmética, ou “de superfície”. 

Mas eu ri mesmo quanto ao calor. Com certeza ele atrapalha qualquer forma de reflexão. Alguém consegue pensar quando está calor?

Mas achei engraçado considerar isso um mal brasileiro e estabelecer a comparação com escritores europeus. Tudo bem que seja uma frase chamariz para que os telespectadores se interessem a assistir a entrevista, e possa estar fora do contexto adequado. Afinal quantas vezes lemos uma chamada na internet de uma notícia, e quando resolvemos acessar, não é nada daquilo que pensamos? De qualquer modo soa cômico.

E também não é um problema que um bom carnê de certa loja famosa por aí, não possa resolver. Basta parcelar em 495895675986789475987 vezes sem juros.

 

E o que a educação tem a ver com isso?

*”Noto que os jovens poetas não têm o senso da tradição literária. Não leram Dante, não leram Skakespeare. Não é culpa deles apenas. É culpa do sistema educacional ! As escolas começaram a privilegiar o presente, como se o Brasil tivesse começado na Semana de Arte Moderna !”. 

A culpa é sempre da educação, se é que alguém já reparou nisso. Mas, ignorando esse pequeno clichê, as escolas brasileiras não dão ênfase ao que diz respeito a ficção.

Obrigam (ou nem tanto) o aluno a engolir Machado de Assis e mais um punhado de nomes cujos livros sequer tem um vocabulário que os alunos entendam. As aulas de redação focam quase exclusivamente a dissertação, que é o principal dos concursos públicos e vestibulares da vida.

Resultado? É o suficiente para que um aluno comum crie raiva de leitura e escrita.  The Student

Reação comum de um aluno normal frente a um “crássico” literário

Ficção é tratado como algo menor, com exceção dos livros já consagrados dos grandes escritores brasileiros, e dos “crássicos”, tidos como se fosse a única coisa que valesse a pena ser lida. A literatura é tratada como algo chato e a escrita criativa é como coisa de vagabundo, algo que não vale a pena nem mesmo para passatempo.

O engraçado é que o gostar de ler está na moda, porém, mais que isso, é inutilidade. Conheço muita gente que escreve por distração, mas não tem coragem assumir esse hobby por causa da mesma ladainha.

Mais que o calor ou a paisagem. Esse é o grande problema. 

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4 comentários:

Renato disse...

Quero descobrir se há algum poeta rico no Brasil;

Ana Karenina disse...

Olá Emanuelle

Ainda sou da filosofia "leia tudo, não importa o que seja, mas leia, até gibi e bula de remédio pode lhe trazer conhecimento"

Acredito que o conhecimento que cada um tem vem das leituras e das experiencias que vive. E por isso, acho que sempre há o que aprender um com o outro.

Muita gente tem medo de expor o que escreve por medo de errar, por medo de mostrar que é tão humano quanto os outros catedráticos que pensam que a vida é tão limitada e rigida quanto a gramática.

Isso me faz lembrar aquela música de adriana calcanhoto, ciranda da bailarina. "procurando bem, todo mundo tem pereba...só a bailarina que não tem..." acho que esse escritor pode estar pensando que é bailarina (isento de qualquer "defeito" humano) rs

Extrapolei um pouco, desculpe! peguei seu link no twitter com o Luan do Sempreceito, acho que gostei daqui, acho que vou ficar pra ver mais, posso? ;)

um abraço bloguistico

Evandro disse...

Bom dia Manu!

Tá, como regra, imortal da academia brasileira de letras é ranzinza, porém, ele acerta, em minha opinião, em um ponto : sobre a valorização da cultura ampla, realmente, hoje a educação não dá cultura, simplesmente prepara(sem base alguma) para concursos.

Sybylla disse...

Ele atribui o problema ao calor, dizendo que nos países frios os escritores produzem mais no frio. Isso em Geografia se chama Determinismo, onde o ambiente terrestre influencia na configuração da sociedade. O assunto é polêmico até dentro da própria Geografia, pois alguns aspectos culturais são mesmo deterministas (Jared Diamond em Armas, Germes e Aço que o diga). E as escolas têm mesmo uma parcela de culpa pois preparam os alunos para o mercado de trabalho ou para a faculdade, e não para a vida. Tanto que nos 3os anos do ensino médio no ano passado (estou afastada das aulas) existe uma disciplina chamada PD (Parte Diversificada - currículo oficial do estado de SP) eu saí do currículo e falei sobre a vida, sobre o porque de estudar e trabalhar, a importância da carreira e dos estudos e os alunos curtiram.

E acho que existe muito mito nas escolas públicas. Alguns são reais e cruéis, outros são gente mal informada que não sabe o que falar mal e atacam a educação. É preciso ter muito cuidado com esses rótulos.

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