O que Maria Mariana tem a ver com a minha última grande decepção?
Nos últimos anos, tenho dado adeus a praticamente todos os resquícios de minha infância. Não pelo fato indiscutível de estar envelhecendo, mas sim por ver que os anos passam e a as coisas mudam. A morte é a responsável por muitos desses casos, e isso está fora do nosso controle. Mas, e quando é a própria vida que nos leva a rejeitar um desses ícones?
Não como por exemplo deixar de gostar de um cantor ou de uma banda que fazia a cabeça na sua infância. É bem mais do que isso. É a mudança de atitude. Foi o que aconteceu comigo recentemente em relação à Maria Mariana.
Pra quem não sabe, Maria Mariana ficou famosa ao escrever Confissões de adolescente, que virou peça de teatro e seriado da TV Cultura na década de 90. A obra que é baseada em seu próprio diário foi e ainda é um dos ícones da juventude, e retratou com muita propriedade um período tão marcante e difícil da vida de qualquer um.
Mas, como diz aquele jingle super-antigo: o tempo passa / o tempo voa… as coisas mudam.
Depois de muito tempo sem ouvir falar nela, eis que surge uma entrevista na revista Época:
Maria Mariana - “Deus quer o homem no leme”
A escritora carioca que foi ícone da juventude nos anos 90 volta a polemizar com “Confissões de mãe”
[…]Aos 36 anos, distante da fama e mãe de quatro filhos, a escritora, atriz e filha do cineasta Domingos de Oliveira lança Confissões de mãe (Editora Agir), um livro nada rebelde, recheado de ideias que vão irritar as feministas.
Afirmação polêmica, não? É uma das declarações da escritora, que voltou em cena na divulgação de seu último livro: Confissões de Mãe. A declaração já seria polêmica por si só, mas ganhou ainda mais repercussão devido ao fato de ser Maria Mariana quem disse: pra quem leu Confissões de Adolescente, e assistiu ao seriado, sabe do que estou falando.
E, ao contrário do que promete a entrevista, ela não irrita somente feministas. Irritaria qualquer mulher.
Eu já havia lido essa entrevista antes. Ela foi publicada em maio deste ano. Na ocasião, fiquei tão decepcionada que acabei guardando a indignação pra mim e deixando o assunto de lado, embora estivesse intacto, guardadinho em algum lugar da minha mente, aguardando alguma espécie de verbalização. E eis que ela veio quando o assunto ressurgiu no Twitter, quando @Cardoso perguntou sobre ela, se Maria Mariana tinha terminado de adolescer.
Bela notícia a dar para os outros, bela surpresa que as pessoas iriam ter se soubessem o que tinha mudado. De como aquela adolescente rebelde e sonhadora se tornou tão… retrógrada.
As idéias que passou a confessar…
Não questiono sua escolha por ser mãe e se dedicar à família. É direito seu, assim como é algo que cabe à toda mulher, mas a forma como ela levanta suas convicções como se fossem regras inexoráveis, como ataca quem pensa diferente ainda que diga não ser a sua intenção.
Maria Mariana diz acreditar que só tem filho por parto normal as mulheres que "merecem" e que eventuais dificuldades para amamentar o bebê surgem para quem não estão dando "o devido valor a seu lugar de mãe".
Que “apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação.”
Ou ainda que “Deus preparou o homem para estar com o leme na mão.”: “A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.”
Seu ideal de felicidade passou a ser Amélia, ou o perfil feminino dos anos anos 50. Passou a jogar toda a reponsabilidade sobre a mulher, ignorando que a escolha era somente sua e não uma regra: um modelo de felicidade dos comerciais de margarina.
… e que mudou na cabeça de uma fã.
Eu francamente acredito que a liberação feminina veio para que a mulher pudesse decidir aquilo que quer ser. Se Maria Mariana optou por ser mãe, por se dedicar ao casamento e aos filhos, muito bom pra ela. É um direito. Mas, levantar suas bandeiras como regras ditas como certas, verdadeiros retrocessos, reforçando valores que fizeram muitas mulheres sofrerem ao longo dos anos… isso foi demais até mesmo pra quem era fã.
Não acho que vá importar a alguém: Confissões de Adolescente será um marco que levarei sempre comigo. Eu era criança quando livro e seriado foram lançados e fizeram sucesso, mas isso não me impediu de entender e curtir. Cresci, comprei o livro em um sebo e o conservo em um lugar de destaque na minha estante. É lá que ele vai ficar.
Mas quanto à Maria Mariana, fica a decepção. Pelo que ela passou a representar, por tudo o que passou a pregar.
Tudo passa e tudo muda. Faz parte da vida.
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2 comentários:
decepção pra mim tbem! eu curti muito o seriado e li os livros, na biblioteca da escola tinham 2. em questão de lemes, acho que mulheres tbem podem ser ótimas capitãs, minha avó é um exemplo!
essa história de apanhar cueca suja? gente, se um homem não tem capacidade de cuidar das próprias cuecas, quanto mais segurar um leme!
quero deixar bem claro que não sou feminista, acredito que homem e mulher, devem se ajudar, e não disputar entre si.
#seráquefaleiasneira? O.O
Em primeiro lugar, o feminismo não é a disputa entre homens e mulheres.
Acho surpreendente - e muito triste também - como a maioria das mulheres faz questão de reiterar que "não é feminista", como se isso fosse uma coisa ruim. Pensando bem, essa postura não é de se estranhar, já que a mídia passa uma imagem totalmente deturpada do feminismo e do que é ser feminista.
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